Mulheres da Camomila: A libertação da culpa


Mulheres da Camomila: a libertação da culpa

A camomila deseja falar com as mulheres, e esse texto é uma pequena realização dessa missão.

Camomila carrega em si todos os arquétipos da deusa, é só saber ouvi-la! Maleável como a água, é a Matriarca da Terra, é Gaia em vegetal e a base para todas as alquimias das mulheres. A pequena e inofensiva flor é forte, corajosa e acolhedora de todos nós, homens, mulheres, crianças, idosos, acolhedora até das outras plantas ou de qualquer ser vivo nesta Terra, e assim é porque só consegue acolher e curar sem machucar quem tem amorosidade em sua força.

No entanto, a maioria foi levada a acreditar, como eu já acreditei, que ela é uma plantinha boba, frágil, delicada, servindo para os bebês e para fazer aquele chazinho quente em dias de resfriado. A camomila, como uma metáfora para o que pensam sobre as mulheres, não é boba, fraquinha nem serve apenas para dar uma acolhida. Talvez, justamente, por representar as mulheres em épocas passadas e por ter sido tão utilizada por elas, essa associação fez com que a camomila se tornasse coisa de “mulherzinha”, fraquinha, boazinha.

Seu nome oficial é Matricaria e significa útero. Camomila é o útero onde se inicia um caldeirão tão forte e sábio que cura sem ferir, é sincero sem espezinhar, toca sem esmagar, dá prazer sem ser invasivo e leva as dores embora fluindo em gratidão e desabrochando leves risadas como a deusa Uzume. Já contei no texto Candidíase: a vagina como local de cura que me tratei da candidíase com a matricaria. Foi através desse processo que ela se revelou muito mais poderosa do que eu imaginava. O fato de eu vê-la como algo “menor” ou “frágil” foi um insight para perceber como eu mesma me concebia sendo mulher: frágil, cuidadora, doce, pequena flor e, por isso, sem possibilidades de algo maior, profundo e corajoso. Minha interação com  a camomila, desde então, tornou-se intensa e afetuosa.

Mas para que ela realmente serve? Se formos apenas seguir a bibliografia básica da aromaterapia, teremos uma visão limitada sobre o poder dessa nobre matriarca. Porém, como historiadora, analisando variadas fontes antigas, inclusive da Inquisição, que cita a camomila como uma das ervas mais utilizadas pelas camponesas, notei que elas empregavam-na para tudo, principalmente para cuidar de seus ventres. Naquele período, entendia-se por ventre o útero e, pela etimologia latina, o útero abrangiria o sistema reprodutor feminino e suas emanações, como menstruação, gestação, prazer, e não apenas a parte do útero como concebemos na nomenclatura atual. Camomila Matricaria é o útero, o ventre, o sistema reprodutor, a força da mulher, o canal vaginal, o seu local de cura energética e espiritual. Não é à toa que a camomila aparece muitas vezes nas ordenações inquisitoriais como prova de bruxaria.

Como uma planta que, desde tão longínqua data, recebe o nome de todo o poder feminino foi subjugada apenas como um “chazinho quentinho”? Quero contar que nesse chazinho quentinho há mais poder do que se imagina. Está cansada do sistema? Exausta? Se separou? Excesso de trabalho? Solidão? Precisando de acolhimento? Camomila! Está precisando de ânimo? Força interior? Querendo ver sua beleza? Acreditar nela? Acreditar que você é capaz e tem poder? Camomila!

Mas por que a camomila teria todo esse poder em nós, mulheres?
Diante de meus estudos históricos, interpreto que a camomila cura porque nos liberta da culpa.  Nas fontes da época, observa-se que, em Roma, as desgraças estavam atreladas a três principais pilares: menstruação, aborto e falta de castidade. Ou seja, desde nossos ancestrais romanos, a sociedade culpabiliza o corpo da mulher por todas as tragédias.
A culpa nos oprimiu e silenciou; a camomila, como uma mãe acolhedora e extremamente forte, vem nos tirar dessas amarras com tanta leveza e acolhimento. 

A cura emocional com a camomila não pode ser muito técnica, é preciso se entregar a ela.
Costumo dizer que a minha melhor amiga, depois de mim mesma, é a camomila. . Diplomática, séria quando precisa, mas risonha até nesses momentos. Camomila é como água, maleável, descobre a linguagem do que nos ataca e, sem agredir de volta, conversa, leva, desfaz.

 

Palmira Margarida é historiadora e atualmente é doutoranda na UFRJ. Pesquisa sobre neurociências, os cheiros e  as emoções. Estuda também neurobiologia das plantas e é a pisciana mais ariana de que se tem conhecimento. Descende de italianos e adora uma massa, mas fala sem gesticular. Ama viajar e captar os aromas das trilhas, das culturas e das ideias. Está em busca do profundo perfume do Ser. Escreve neste espaço às quintas-feiras. Para informações sobre seu trabalho com aromas, visite o site www.perfumebotanico.com.br

 

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